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Steve Jobs seria cancelado em 2021?

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Ele era obcecado pelos detalhes de suas criações, mas chegava a mentir, a blefar ou a ser abusivo com funcionários, amigos e parentes para conseguir as coisas como queria

Na última terça-feira (05), a morte de Steve Jobs, fundador da Apple, completou 10 anos. Considerado um gênio por muitos, o pai do iPhone era uma figura de extremos: por um lado, sua capacidade criativa causou grandes saltos tecnológicos. Por outro, sua personalidade costumava machucar pessoas ao seu redor. Ele era obcecado pelos detalhes de suas criações, mas chegava a mentir, a blefar ou a ser abusivo com funcionários, amigos e parentes para conseguir as coisas como queria.

Vítima de um câncer no pâncreas aos 55 anos, Jobs não testemunhou um desdobramento da popularização dos smartphones na última década: a cultura do cancelamento nas redes sociais. Mas, com tantas características polarizadoras e um contêiner de histórias pessoais e profissionais pesadas, ele seria um forte candidato a ser cancelado nos dias atuais.

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Temperamental, ele costumava se justificar da seguinte maneira: “Eu sou assim”. Mas não era só a língua afiada que poderia tornar Jobs um alvo dos “tribunais da internet”. Ele rejeitou publicamente a filha, afastou a Apple de questões políticas e sociais, minimizou condições trabalhistas na China e fez ameaças e acusações a rivais como Microsoft e Google.

Por ser direto e gostar do embate, é possível que o chefão da Apple não recuasse diante das críticas, um efeito comum do cancelamento das redes.

“Steve Jobs seria cancelado em 2021. E acho que ele adoraria isso”, afirma Fábio Gandour, que liderou por quase dez anos o laboratório de pesquisas da IBM no Brasil. “Ser cancelado significaria um respeito ao tempo dele, que seria usado para outras coisas”, diz o pesquisador, que costuma lembrar de um encontro acidental que teve, no começo dos anos 2000, com Jobs no banheiro da Apple, na Califórnia (“foi impossível um aperto de mãos”, lembra).

Ignorar a opinião alheia talvez fosse um dos pontos fortes do executivo, que, ao contrário de muitos colegas em empresas rivais, orgulhava-se de não aplicar pesquisas de mercado para entender o que queriam os clientes. Uma de suas frases mais famosas é: “Os consumidores não sabem o que querem até que mostremos a eles”.

Ser ignorante à opinião alheia poderia não fazer tanta diferença para Jobs em termos pessoais. Mas seus comportamentos poderiam reverberar na Apple, criada em 1976.

Para Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), da “porta da Apple para dentro”, o cancelamento poderia tornar os funcionários da empresa “muito mais vocais” quanto a abusos e práticas no ambiente de trabalho.

Já da porta para fora, a figura de Jobs, tão conhecida como a da Apple, poderia ser fustigada pela opinião pública. “É de se esperar que, numa cultura do cancelamento, que explodiu muito depois do falecimento de Jobs, você também iria ter situações em que as pessoas poderiam apontar para o boicote o produto da empresa”, explica Souza.

Novos tempos
A cultura do cancelamento põe em questão as pessoas por falas ou comportamentos tomados como desrespeitosos ou passíveis de penalidades, como em casos de assédio moral ou sexual. O professor Fábio Mariano Borges, da ESPM, lembra que o fenômeno coloca um novo peso sobre a reputação de figuras públicas para além do trabalho. “Antes, entrar em uma empresa e cumprir metas já bastava. Mas hoje todos nós viramos marca. Somos todos CPF e CNPJ ao mesmo tempo”, explica.

Do final da década de 1990 até sua morte, o executivo viu acontecer a fusão entre a própria vida pessoal e a profissional ao ser o rosto da empresa.

Nos tempos atuais, esse fenômeno tem consequências diferentes. Imaginar Steve Jobs em 2021 significa que a sua vida pessoal seria um fator de peso para que consumidores optassem por um iPhone. Poderia ser desenterrada a história, nos anos 1970, de que Jobs escondeu do amigo Steve Wozniak um bônus financeiro conjunto da Atari, onde trabalharam até fundarem a Apple – Jobs pegou a grana toda para si.

O pior dos casos, porém, talvez tenha sido a demora em reconhecer a paternidade de sua primeira filha, Lisa, nascida em 1978, quando ele tinha 23 anos.

Dado o peso das redes sociais na imagem da Apple, Borges imagina que o executivo buscaria algum tipo de adaptação. “Steve Jobs era o espírito do tempo e sabia se adaptar muito facilmente. Hoje, ele estaria nas apresentações da Apple falando sobre diversidade, por exemplo”, diz. Uma pista disso é observar a guinada da Apple sob Tim Cook, sucessor de Jobs no posto de comando da empresa.

Nesses 10 anos, além de lançar um relógio inteligente e fones de ouvido sem fio, a Apple tornou-se porta-voz das minorias, defendendo em público o movimento Vidas Negras Importam, promovendo a igualdade de gênero e se manifestando contra projetos de lei que minem a diversidade sexual. Na gestão anterior, esses assuntos não tomavam tempo das apresentações de Jobs.

Animal extinto
A postura controversa, combativa e temperamental parece ter sido extinta com a morte de Steve Jobs – pelo menos entre os líderes das principais companhias de tecnologia do mundo. Hoje, elas se blindam para evitar críticas.

Até 2021, por exemplo, o contemporâneo (e rival na Microsoft) Bill Gates, era o estereótipo do “bom velhinho”, que circulava pelo mundo financiando estudos para desenvolver vacinas contra a covid e promovendo a agenda climática.

Tudo isso veio abaixo com o divórcio de Melissa Gates após 27 anos, anunciado em maio passado. Veio a público uma série de histórias, dando conta de casos extraconjugais e investidas sexuais contra trabalhadoras. A história reverberou tanto, que a própria Microsoft buscou distância do seu fundador.

“Um CEO que possa confrontar determinados grupos na opinião pública pode colocar em risco a estratégia de negócio dessa companhia”, explica Souza, do ITS-Rio.

Steve Jobs não viu acontecer a cultura do cancelamento, é claro. Mas, ao final da vida, não escondia o passado e queria ser conhecido tanto pelos seus méritos, quanto pelos deméritos.

Em entrevista ao jornalista americano Walter Isaacson, autor de sua mais conhecida biografia, Jobs disse: “Eu não tenho nenhum esqueleto no armário.”

Resta saber se isso seria suficiente para o tribunal da internet.

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