‘O meu lucro é ver as pessoas felizes’: Evandro Felix, secretário da Cultura e Turismo de Santa Bárbara, fala sobre o sucesso do Rock Fest

O secretário municipal de Cultura e Turismo de Santa Bárbara d’Oeste, Evandro Felix, conversou com o Jornal Americanense sobre os resultados e a repercussão do Santa Bárbara Rock Fest 2026. Em sua 9ª edição, o festival reuniu 103 mil pessoas em público rotativo, movimentou R$ 2,7 milhões em vendas e serviços e registrou crescimento de 15% em relação ao ano anterior.

Realizado entre os dias 21 e 23 de agosto, no Complexo Usina Santa Bárbara, o evento contou com 64 atrações distribuídas em seis palcos. Entre os principais nomes da programação estiveram Malvada, Angra, Banda Malta, Supercombo, Di Ferrero, Fresno, Raimundos, CPM 22 e Detonautas.

O sucesso da edição de 2026 já abriu caminho para a próxima: o Santa Bárbara Rock Fest 2027 está confirmado para os dias 20, 21 e 22 de agosto, marcando a décima edição do festival. Em entrevista, Evandro fala sobre os números alcançados, o impacto econômico e turístico do evento, a escolha das atrações, o espaço para artistas independentes e os desafios de manter o festival em constante evolução.

JA: Qual o saldo do Santa Bárbara Rock Fest 2026?

Evandro Felix: A gente se dedicou muito para essa entrega. São várias equipes trabalhando ao longo de todo o processo para fazer com que o festival aconteça, e nós tínhamos, de fato, uma expectativa muito alta para esta nona edição.

Como o Rock Fest é um evento gratuito e não trabalha com venda de ingressos, não temos uma ferramenta que nos permita mensurar previamente quantas pessoas estão interessadas em participar. Nossos principais termômetros são o credenciamento de caravanas e, principalmente, o comportamento nas redes sociais. E esses indicadores já mostravam que teríamos um público muito expressivo. Por isso, nos preparamos para receber esse crescimento.

Ampliamos nossas estruturas, tanto na área do Palco Terra, onde fizemos uma grande terraplanagem para posicionar o palco mais ao fundo, quanto nas áreas de bares. Instalamos totens de autoatendimento e ampliamos as opções de atendimento ao público, inclusive com vendedores ambulantes comercializando bebidas em bags térmicas. Tudo isso foi pensado para oferecer mais conforto e agilidade durante o festival.

“Nesta edição, conseguimos realizar uma pesquisa turística para identificar a origem do nosso público e descobrimos que apenas 33% das pessoas eram de Santa Bárbara”

Mesmo com toda essa preparação e com uma expectativa bastante positiva, o resultado nos surpreendeu. Nesta edição, conseguimos realizar uma pesquisa turística para identificar a origem do nosso público e descobrimos que apenas 33% das pessoas eram de Santa Bárbara d’Oeste. Ou seja, 67% vieram de outras cidades da região e também de outros estados — foram visitantes de três estados diferentes.

Esse dado é muito significativo porque mostra que o Rock Fest ultrapassou as fronteiras do município e se consolidou no calendário turístico dos grandes festivais do país.

E temos um diferencial importante: buscamos oferecer uma experiência de grande festival, mas mantendo a gratuidade. Como administração pública, entendemos que temos o papel de oferecer atividades culturais de qualidade, gratuitas e acessíveis a diferentes públicos.

Embora o Rock Fest tenha o rock como protagonista e um line-up voltado aos diferentes estilos dentro do gênero, o festival vai muito além dos shows. Temos atividades acontecendo simultaneamente, como flash mobs de dança e de bandas marciais, além da Vila Turística do Rock, que reúne iniciativas de economia criativa e gastronomia, trazendo os empreendedores e estabelecimentos locais para dentro do evento.

JA: Você comentou a respeito da diversidade do público e que o festival recebeu pessoas de outros estados. Pensando justamente em alcançar públicos de diferentes regiões, como funciona a escolha dos headliners? Neste ano, por exemplo, nomes como CPM 22 e Raimundos, que já passaram pelo festival, voltaram à programação. Como vocês avaliam quais artistas têm potencial para atrair um grande público e, ao mesmo tempo, manter a identidade do Rock Fest?

Evandro Felix: Como muitos dos artistas que passaram pelo festival já disseram, o rock não morreu. Ele está muito vivo. O que acontece é que, atualmente, temos artistas do cenário nacional que estão nos grandes palcos, no mainstream, e que já estão muito consolidados.

Hoje, não temos tantos nomes novos despontando no cenário do rock nacional, mas temos artistas muito consolidados e que continuam sendo muito pedidos pelo público. Posso dizer que, se trouxermos o CPM 22 todos os anos, teremos um enorme público. O mesmo acontece com a Pitty, porque são artistas que construíram uma fanbase muito forte ao longo dos anos.

São fãs que acompanharam desde a juventude e seguem acompanhando. Então, temos aí diferentes gerações, dos anos 80, 90 e 2000, que dão a base para o rock que também vivemos hoje.

São fãs que acompanham esses artistas desde a juventude e continuam presentes. Temos, portanto, diferentes gerações — dos anos 80, 90 e 2000 — que ajudaram a construir a história do rock e que ainda movimentam o gênero atualmente.

Mas o festival não se resume aos grandes nomes de reconhecimento nacional. A gente entende esses artistas como chamarizes, que ajudam a atrair o público e, consequentemente, dão visibilidade aos artistas que se apresentam nos palcos independentes.

“Hoje, eu diria que o Rock Fest se consolidou como um dos maiores festivais de rock voltados para bandas independentes do país”

Hoje, eu diria que o Rock Fest se consolidou como um dos maiores festivais de rock voltados para bandas independentes do país. Nos outros cinco palcos, buscamos justamente artistas que ainda não têm uma grande projeção nacional, mas que estão construindo esse caminho e precisam de oportunidades como essa para ganhar visibilidade.

O festival proporciona a esses artistas a possibilidade de criar conteúdo, produzir fotos e vídeos, conquistar novos públicos e mostrar seu trabalho para pessoas que talvez ainda não os conheçam.

Então, o Rock Fest acaba sendo também essa porta de entrada para novos artistas.

JA: E pensando em tudo isso, o Rock Fest deixou de ser apenas um grande evento cultural e passou a ter também um impacto importante na economia de Santa Bárbara d’Oeste, além de ganhar projeção nacional. Nesta edição, inclusive, os números de consumo dentro do festival, tanto de bebidas quanto de alimentação, bateram recordes. Qual foi o impacto econômico desta edição e o que esses números representam para o município?

Evandro Felix: Movimentar R$ 2,7 milhões dentro de um festival é um número muito significativo. Isso representa geração de emprego e renda e uma cadeia de pessoas que trabalha diretamente durante o evento, muitas delas como freelancers.

O Rock Fest movimenta toda uma cadeia econômica que está inserida no que chamamos de economia criativa, envolvendo os setores de criatividade, serviços e entretenimento. É uma área que tem uma participação importante na economia do país e da qual o festival também faz parte.

Mas é importante destacar que esses R$ 2,7 milhões correspondem apenas ao que conseguimos mensurar dentro do próprio evento, ou seja, os gastos realizados pelo público em alimentação, bebidas e outros produtos e serviços. O impacto econômico do festival é muito maior quando consideramos toda a movimentação gerada fora do complexo.

Temos, por exemplo, as pessoas que se hospedam na cidade, movimentam o setor de hospedagem e plataformas como o Airbnb, fazem refeições nos restaurantes, abastecem seus veículos ou utilizam transporte para chegar ao festival. Também temos o movimento gerado pelas caravanas e pelos visitantes que vêm de outras cidades e estados.

Então, se conseguirmos mensurar toda essa cadeia, certamente teremos um impacto econômico muito superior aos R$ 2,7 milhões registrados dentro do evento.

O que conseguimos acompanhar de forma mais objetiva e imediata é justamente o consumo realizado no festival, por meio do nosso sistema de dados, que monitora as compras. E esses números já nos dão uma dimensão bastante significativa do impacto que o Rock Fest gera para a economia.

JA: Rock Fest é um evento gratuito para o público, mas envolve uma grande operação e, consequentemente, investimentos. Sabemos que existem parceiros, como o Pague Menos e outras empresas. Como funciona a composição dos recursos para viabilizar o festival? Qual é a participação do município e como entram os parceiros e patrocinadores nesse modelo?

Evandro Felix: Hoje, utilizamos três fontes de recursos para fazer com que o evento aconteça. Temos o recurso próprio do município, por meio da dotação orçamentária da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Também captamos recursos por meio do ProAC, ICMS, que permite que as empresas direcionem parte do imposto devido para projetos culturais, como o festival. E temos ainda o patrocínio direto.

Por exemplo, a cervejaria pode ser responsável por financiar a roda-gigante e outros serviços que oferecemos gratuitamente ao público. Como contrapartida, existe a exposição da marca e a comercialização de seus produtos, como bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

Nesse modelo, a empresa faz um aporte direto para financiar itens que estarão dentro do festival. Então, trabalhamos com essas três frentes: o patrocínio direto, o recurso incentivado e o recurso próprio da Prefeitura. É essa composição que viabiliza a realização do festival.

JA: A Secretaria de Cultura traz uma novidade a cada ano, uma nova atração, algo diferente para chamar a atenção do público. Como é isso para você? Você está à frente da Secretaria há bastante tempo, desde a gestão do Denis Andia. Como fazer para se reinventar nesse sentido? Porque você acaba sendo o combustível de tudo isso. De onde vem essa inspiração? Como fazer para não cair no automático? Porque a gente sabe que, com o passar dos anos, é muito fácil entrar naquele marasmo. Mas isso nunca aconteceu.

Evandro Felix: Primeiro, eu sou um cara que ama festivais. Gosto muito de buscar referências fora. Eu mesmo, hoje, saí do Rock Fest e, no segundo dia, já embarquei para um evento no Rio de Janeiro, acompanhando um evento de decoração. Acho importante buscar conhecimento e referências fora.

A gente precisa explorar um pouco a nossa própria bolha. E eu faço isso de maneira muito recorrente. Acredito que, para vencer os desafios dentro dos eventos públicos, eu também preciso ser público. Não adianta apenas ser um realizador. Eu preciso entender as dores do meu público. Às vezes, é enfrentar uma fila, às vezes é passar por algum perrengue que eu mesmo, como público, não gostaria de enfrentar. Então, para entender isso, preciso vivenciar. Acho muito importante ter essa experiência.

Segundo, eu tenho uma equipe maravilhosa. Não tenho palavras para descrever a minha equipe, porque são pessoas extremamente engajadas, que acreditam muito naquilo que nos propomos a fazer. Vestem a camisa e trabalham, muitas vezes, de manhã, à tarde e à noite para fazer tudo acontecer.

E, se eu não tivesse essa equipe da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, assim como o apoio dos demais secretários, que autorizam outros servidores da administração municipal a trabalhar na limpeza, na hidráulica, na elétrica e em tantas outras áreas, nós não conseguiríamos realizar um evento dessa magnitude.

Eu acabo sendo o maestro, aquele que traz o fio condutor, que organiza e assume a responsabilidade pelo que precisa ser feito. Mas, se eu não tiver toda essa rede de apoio, nada acontece.

JA: E como é para você, novamente, essa visão pessoal dentro do lado profissional, como secretário e responsável pela Cultura? Pensando em um cenário de quase dez anos, desde as primeiras edições do Rock Fest até o momento em que você assumiu a Secretaria, em 2017, o evento começou a ganhar força e, depois da pandemia, teve esse grande crescimento. Como é, para você, olhar para essa trajetória e perceber que, querendo ou não, existe uma associação muito forte entre o crescimento da Cultura de Santa Bárbara e o trabalho que você vem desenvolvendo à frente da Secretaria? Hoje, quando falamos em Rock Fest, estamos falando de uma referência nacional. E, quando pensamos em outros eventos, como a Festa das Nações e o Festival Raiz, também vemos Santa Bárbara se destacando no cenário estadual.

Evandro Felix: É uma sensação de orgulho, sem dúvida alguma. A gente trabalha muito e acredita muito no que faz. Somos extremamente perfeccionistas — e falo “somos” porque a minha equipe acabou incorporando muito desse meu olhar.

Hoje, às vezes, eu mesmo me surpreendo com o nível de percepção que eles desenvolveram. Eles conhecem meu gosto estético, meu senso crítico, entendem o meu olhar e, muitas vezes, já sabem o que eu vou pensar antes mesmo de eu falar. Acho que isso faz parte de um processo de construção de equipe.

E é muito gratificante. Fico muito feliz e realmente agradecido por todas as palavras de reconhecimento e carinho que recebemos, seja presencialmente ou pelas redes sociais.

Eu entendo que, às vezes, somos um ponto fora da curva, porque existe uma equipe inteira abraçando o propósito e querendo fazer as coisas darem certo. Conversando com outros secretários, a gente percebe que existem muitas dificuldades em outras administrações municipais nesse sentido.

Então, também posso dizer que sou um cara sortudo. Tenho a sorte de contar com uma equipe qualificada, que ama o que faz e que é multidisciplinar.

Acho que só conseguimos fazer tudo isso porque temos uma equipe que assume diferentes funções para fazer as coisas acontecerem. Não é aquela pessoa que recebe uma tarefa e simplesmente executa. Muitas vezes, alguém percebe que existe uma necessidade e pergunta: “Você está precisando de ajuda? O que eu posso fazer para te ajudar?”

São pessoas que têm esse espírito. E acredito que esse seja um dos grandes diferenciais que temos hoje dentro da equipe.

De lá para cá, também construímos esse cuidado estético e essa preocupação com a experiência em todos os nossos eventos e realizações.

E existe uma coisa importante: a gente não busca lucro. Não somos uma empresa que tem como objetivo gerar lucro. O meu lucro é ver as pessoas felizes, ver o público participando, se divertindo e aproveitando aquilo que estamos oferecendo. É saber que conseguimos proporcionar a melhor experiência possível.

“Não somos uma empresa que tem como objetivo gerar lucro. O meu lucro é ver as pessoas felizes”

Se o saldo é positivo nesse sentido, é porque está dando certo. E é assim que precisamos continuar: investindo, inovando e buscando sempre melhorar.

JA: Há algo mais que você gostaria de destacar que a gente não tenha pontuado sobre o Rock Fest desta edição?

Evandro Felix: Estávamos ali com um público excelente e as coisas acabam nascendo de uma maneira muito divertida. Eu lembro que, ainda durante o festival, tive um insight e pensei: “Vamos divulgar o Rock Fest já quando acabar, antes da última atração.” E aí, um dia, voltando na van, todo mundo conversando e dando risada, começamos a ter ideias.

Surgiu a ideia de utilizar o “X”, com as pessoas fazendo o gesto com as mãos e também com os instrumentos, para simbolizar o número 10 em algarismos romanos. A partir daí, começamos a viajar nas ideias, e todo mundo embarcou nessa proposta.

Quando chegou o dia de gravar o vídeo, foi aquela correria, porque ele precisava ser feito praticamente em tempo real. O CPM 22 tinha acabado de tocar e, quando lançamos o vídeo anunciando a edição de 2027, já havia uma imagem do CPM 22 cantando dentro do próprio vídeo.

É isso que eu falo: meu time é surpreendente em diferentes aspectos.

E a gente quis fazer esse anúncio imediatamente para o público porque sabemos que o evento tem um grande potencial turístico e queremos que ele se consolide cada vez mais no cenário dos grandes festivais do país.

Para isso, é necessário planejamento. Inclusive, já estabelecer uma data no calendário com antecedência é importante para que as pessoas possam se organizar, planejar a viagem e vir para Santa Bárbara d’Oeste.

Então, o trabalho para a próxima edição já começou.

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