Jussania Oliveira: Sexo com ou sem afeto?

Vivemos tempos bem distintos de 10, 20, 30 anos atrás. Hoje, encontrar uma parceria sexual não é tarefa difícil. Existe muita “oferta” nos aplicativos de relacionamentos, nos rolês e baladas, no colégio/faculdade…

As pessoas se encontram, “trocam” pouca conversa, praticamente sem conhecimento nenhum do outro, mas se tiver atração física, está valendo!

Em contrapartida, encontrar alguém disposto a mais do que encontros fortuitos, sem compromisso, que queira de fato se envolver afetivamente, está bem difícil…

É interessante que, na mesma medida que o sexo foi ficando mais fácil, o envolvimento amoroso foi ficando mais difícil.

Mas vejo que esta urgência, praticidade e disponibilidade geral não se refere apenas a sexualidade.

Se você parar para refletir, vai perceber que as pessoas estão muito ensimesmadas, voltadas pra suas necessidades individuais, para a satisfação imediata de qualquer desejo, seja ele sexual ou não.

As pessoas vivem num mundo “fast-food”, onde as outras pessoas, relacionamentos e sexualidade são “descartáveis”, onde impera o momento e a satisfação imediata. Não se tem mais tolerância, paciência consigo mesmo ou com o próximo.

Não se leem mais livros (o Brasil nunca esteve à frente do hábito de leitura, mas que tristeza ver as livrarias fechando…), não se consegue assistir um vídeo de mais de 1 minuto, um áudio de 2 minutos e por aí vai…

E o mais incoerente de tudo isso é que toda esta mudança deveria estar trazendo felicidade, prazer e saúde mental, certo?

Errado! Em 32 anos de profissão na saúde mental e sexual, eu nunca vi um número tão grande de pessoas emocionalmente comprometidas.

Daí você pode logo dizer: Ah, mas foi a pandemia. Sim, eu concordo que a pandemia contribuiu, e muito, para a sociedade estar como está, mas eu diria que isso já vem antes, bem antes da pandemia.

Eu nunca vi tanta gente com tanto tipo de transtorno mental/psiquiátrico/psicológico. Eu nunca vi tanta gente com grande dificuldade para se relacionar, eu nunca vi tantas disfunções sexuais, o aumento do número de divórcios…

Enfim, vejo uma multidão totalmente perdida, sem saber por onde começar a se encontrar.

As pessoas buscam a felicidade nas redes sociais, o que infelizmente promove efeito contrário, pois acreditam no que é postado e se sentem um lixo, acham que são fracassados por não terem uma vida de alegrias, viagens, dinheiro e sucesso!

As pessoas perderam o prazer das coisas simples. Na verdade, nem conseguem reconhecer o que, de fato, lhes promove prazer.

E buscam se anestesiar com medicamentos. Eu nunca vi uma proliferação de farmácias tão grande quanto temos agora! E sempre cheias.

E daí me pergunto: o que está acontecendo com o ser humano? Em que momento nos perdemos? O que realmente nos faz feliz? Do que sentimos falta?

Não sei vocês, mas em minha opinião, sexo é muito bom, mas sexo com envolvimento afetivo é incomparável. Não existe combinação mais perfeita para se ter e dar prazer, para ser feliz. Penso que a humanidade, de um modo geral, está precisando de amor… Amor por si mesmo, amor pelo próximo, amor pelo que faz, amor pela natureza, amor pelas coisas simples, amor por tudo o que se é, sem desejar ser ninguém além de você mesmo!

A evolução se faz indo para frente, mas em alguns momentos da história, precisamos dar um passo para trás para recuperarmos o caminho saudável.
O que você pensa a respeito?

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