Relatório final do Cenipa aponta falhas da Voepass, da tripulação e da Anac em acidente que matou 62 pessoas

Investigação conclui que aeronave não deveria ter decolado em condições de chuva e identifica uma cultura de descumprimento de procedimentos de segurança na companhia aérea

Coletiva do Cenipa responde perguntas de jornalistas sobre acidente com avião da Voepass — Foto: Gabriella Ramos/g1

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, ocorrido em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), que provocou a morte de 62 pessoas. O documento conclui que a tragédia foi resultado de uma sequência de falhas envolvendo a companhia aérea, a tripulação e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Entre os principais apontamentos da investigação está a constatação de que a aeronave não deveria ter sido liberada para decolagem. Segundo o relatório, o avião apresentava uma falha no sistema do limpador de para-brisa, condição que, pelas normas operacionais, impedia a realização do voo diante da previsão de chuva no horário da partida.

A investigação também revelou que o ATR 72-500 enfrentou condições severas de formação de gelo durante aproximadamente dez minutos de voo. O sistema de degelo, essencial para a segurança da aeronave nessas circunstâncias, não foi acionado corretamente pela tripulação, apesar dos alertas emitidos pelos equipamentos de bordo.

Durante a apresentação do relatório, o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, destacou que as gravações da cabine mostram os pilotos conversando sobre assuntos pessoais durante boa parte do trajeto, enquanto deixavam de executar procedimentos considerados fundamentais para a operação segura da aeronave.

Outro ponto considerado grave pelo Cenipa foi a identificação de falhas recorrentes na comunicação de problemas técnicos. Segundo a apuração, panes registradas em voos anteriores não eram lançadas no diário de bordo, impedindo que equipes de manutenção realizassem os reparos necessários antes de novas operações.

O relatório ainda descreve a existência de uma “cultura de normalização de desvios” dentro da Voepass, caracterizada pelo descumprimento sistemático de procedimentos operacionais. Entre as irregularidades identificadas estão o reaproveitamento de componentes defeituosos em outras aeronaves, a atuação de auxiliares de manutenção sem supervisão adequada e a omissão de registros de falhas para manter as aeronaves em operação.

Além das responsabilidades atribuídas à empresa e à tripulação, o Cenipa apontou falhas na atuação da Anac. Auditorias realizadas antes do acidente já haviam identificado diversas irregularidades relacionadas à manutenção das aeronaves e aos processos internos da companhia. No entanto, segundo o órgão investigador, essas informações não resultaram em medidas suficientes para reduzir os riscos operacionais, permitindo a continuidade das atividades da empresa.

A investigação técnica analisou mais de 1.200 voos realizados pela companhia, examinou as caixas-pretas da aeronave, realizou testes em simuladores, voos experimentais, inspeções nos motores, no sistema de degelo e avaliou milhares de documentos operacionais e de manutenção.

Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo representa o episódio mais grave de sua história e informou que colaborou integralmente com as investigações desde o início, além de prestar assistência às famílias das vítimas. A companhia reiterou que sempre adotou padrões internacionais de segurança e afirmou permanecer à disposição das autoridades.

Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal mantém um inquérito para apurar possíveis responsabilidades criminais pelo acidente. A expectativa é que a investigação seja concluída nas próximas semanas e encaminhada ao Ministério Público Federal, que avaliará eventuais medidas judiciais.

A tragédia de Vinhedo é considerada o maior desastre da aviação comercial brasileira desde o acidente com o voo da TAM, em 2007. O relatório final do Cenipa reúne recomendações destinadas a aprimorar os protocolos de segurança operacional e evitar que ocorrências semelhantes voltem a acontecer na aviação brasileira.

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